quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Um Sonho

Sonhei com uma festa, destas que são realizadas entre os meses de junho e julho. A festa era realizada numa praça, na descida de um viaduto. Uma igreja branca ao centro impunha respeito ao local. Árvores circundavam toda a praça em harmonia com a arquitetura da década de 30, lembro-me da existência de um sobrado amarelo próximo a praça (O cenário, perfeitamente palpável e vívido na minha mente; realidade ou apenas fruto da imaginação de um sonhador?).

Barracas estavam espalhadas por toda a praça, pessoas andavam ruidosamente entre as comidas e lembranças da paróquia expostas pelos vendedores. Crianças corriam felizes, namorados nos bancos das praças de mãos dadas, barracas de jogos... (festas assim ainda existem?)

Neste contexto, encontrei três amigos da minha infância em Minas Gerais. Um abraço entremeado de alívio desespero selou o estranho encontro. Iniciada a conversa entendi que meus amigos estavam perdidos, sem dinheiro e com fome (talvez por conta de um assalto, acredito). Uma barraca de acarajé chamou atenção do grupo, de pronto saíram correndo para fazer pedido: quatro acarajés para cada! Um total de doze, para a felicidade da baiana que encerrou o trabalho com a venda realizada, seu tabuleiro restou vazio. A Baiana indicou o caminho de volta para meus amigos após eu ter pago a conta com um punhado de moedas de cobre. Na despedida, entreguei mais moedas para que eles seguissem a sua jornada.

Uma vez mais, fiquei só na praça. Percorrendo a lateral da igreja, esbarrando em inúmeras pessoas no vai-e-vem, vejo sob uma grande árvore outra pessoa do passado. Ela estava com uma expressão zangada. Me aproximei para saber o que estava acontecendo. Surpreso, entendi que o problema era comigo. Fui culpado por ter arranhado propositalmente seu carro vermelho (da cor de um chambinho, se é que esse é o nome dá a comida das crianças), fui acusado de ter me desfeito do veículo... Incomodado com a situação, tendo certeza de que eu não tinha sido o autor dos arranhões, pedi para conversarmos a sós.

Entramos num dodge antigo, vermelho e preto, e brigamos como crianças. Durante a briga um bêbado abriu a porta do carro dando início a uma estranha dança descompassada, falava coisas desconexas com sua língua enrolada. Mais uma vez tirei moedas de cobre que estavam no meu bolso para poder ter paz e terminar a conversa.

Saímos com o carro e a briga terminou, tão rápido como havia começado (acho que isso sempre aconteceu). Iniciamos um passeio agradável, gargalhávamos pela estrada falando sobre as pessoas e lugares, contávamos casos da vida, lembranças de uma época sem problemas com obrigações cotidianas simples, um tempo que ríamos de tudo e chorávamos por nada... A vida de duas crianças que no futuro amadureceriam. De volta a igreja, a festa tinha acabado, não existia mais música e as pessoas anteriormente ruidosas entravam em silêncio na igreja ao som das badaladas dos sinos que noticiavam o início da missa das 18:00 hs. Após um abraço na porta da igreja nos despedimos, cada um seguiu o seu destino. Eu, nostálgico pelas lembranças, fui de encontro ao mar, que estava sereno sob a luz da lua, a costa deserta facultava uma visão perfeita dos arredores e do horizonte em alto mar. Ao fundo avistei uma baleia que saltava e esguichava batendo as nadadeiras...

Repentinamente acordo com o despertador do celular da minha nova vida (muitos toques, por sinal), abro os olhos e me enxergo num espelho dentro de olhos verdes. Após um bom dia dado sem palavras, representado apenas por um simpático sorriso matutino, vejo que a nostalgia não faz sentido e me pergunto se de fato o passado existiu.

Despertado, conto os anos que foram transcorridos, sinto todo o seu peso nas costas. Lá se foram trinta e quatro anos, uma vida!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Compreensão

Entendo que nada sei;

Entendo que não sou dono da razão;

Entendo que meus receios são reflexos das experiências que vivi;

Entendo que as imperfeições que carrego comprometem meus julgamentos;

Entendo que possuo racionalidade-passional decorrente dos sentimentos que tenho pelos "meus";

Entendo que essa racionalidade-passional faz com que eu tente preservar os "meus" das pedras existentes nos caminhos;

Entendo que não posso direcionar a vida dos meus para poupá-los dos sofrimentos, que embora dolorosos, fazem parte do crescimento humano;

Entendendo minhas limitações compreendo suas decisões, aceito e apoio. Nada mais tenho a dizer, criticar ou proteger. Os "meus" devem andar com as próprias pernas e eu tenho uma vida para: aprender, raciocinar, superar, aperfeiçoar, amar, proteger e direcionar.

Compreendo-te!

Eu te amo


É intrigante como as pessoas reagem quando recebem um “eu te amo” pela cara. Para uns traz felicidade, para outros tem o mesmo impacto de um soco e existem aqueles para quem a frase funciona como aviso: a relação está na hora de terminar.

No momento essa frase tem proporcionado momentos interessantes na minha vida observando relacionamentos de pessoas próximas.

Após uma longa conversa, com um clima romântico de fundo, o namorado fala para ela:

- Eu te amo!

Ela surpreendida diz:

- Claro!

Ela, insegura com relação aos próprios sentimentos, não foi capaz de quebrar o clima romântico que envolvia a situação e entendeu por bem, admitir, com muita segurança por sinal, que não duvidava dos sentimentos dele (é obvio que você me ama!).

Em outra situação, com pessoas diversas, após essa frase a resposta foi:

- Você é lindo e muito sensível.

Neste caso, a outra entendia que não existia amor de sua parte, e que esse era o momento de terminar a relação vez que o sentimento não era recíproco. A relação poderia ter continuado caso não existisse a complexa frase: Eu te amo.

A grande maioria das pessoas entendem a frase como algo que se diz corriqueiramente, praticamente um “bom dia!” ou “como vai?”. Existe quem diga após conviver com alguém especial: “Por muito menos eu já disse eu te amo”.

Quem se preocupa verdadeiramente com a afirmativa sofre no momento de falar (insegurança pelo sentimento da outra parte) e sofre igualmente no momento que ouve caso não tenha certeza dos próprios sentimentos.

Não menos importantes são as situações daqueles que querem usar a frase mas por entenderem os complexos desdobramentos que envolvem a assertiva quedam-se no: Eu te adoro!

Três palavrinhas simples que juntas formam um mar de complexidades. Aplicados no momento correto alavancam o relacionamento, caindo no erro de usá-las no momento inoportuno, exprimem ingenuidade e dão fim à relação.

Bom, não escolhemos por quem vamos nos apaixonar, já amar... é outro assunto. A paixão não oferta escolha ela simplesmente acontece e nem sempre pela pessoa correta. Quando o amor é a questão, entendo o sentimento como uma decisão, optamos por amar.

Assim, deve-se ter certeza dos próprios sentimentos e das afinidades existentes entre o casal para só então dar a feliz ou nefasta notícia: Eu te amo!

Acredito que uma boa opção para expressar a decisão seja:

“Eu te amo! Mas, cale-se... Não preciso saber o que você pensa a respeito, é uma decisão minha!”.

É claro, que com um clima romântico e jocoso para não parecer grosseiro...


“Amor não é se envolver com a pessoa perfeita,
aquela dos nossos sonhos.
Não existem príncipes nem princesas.
Encare a outra pessoa de forma sincera e real, exaltando suas qualidades, mas sabendo também de seus defeitos.
O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.”

(Mário Quintana)

domingo, 5 de outubro de 2008

Segue Teu Destino

Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é a sombra
De árvores alheias

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses

Vê de longe a vida
Nunca a interrogues
A resposta está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

(Poema de Ricardo Reis - Fernando Pessoa)