Sonhei com uma festa, destas que são realizadas entre os meses de junho e julho. A festa era realizada numa praça, na descida de um viaduto. Uma igreja branca ao centro impunha respeito ao local. Árvores circundavam toda a praça em harmonia com a arquitetura da década de 30, lembro-me da existência de um sobrado amarelo próximo a praça (O cenário, perfeitamente palpável e vívido na minha mente; realidade ou apenas fruto da imaginação de um sonhador?).
Barracas estavam espalhadas por toda a praça, pessoas andavam ruidosamente entre as comidas e lembranças da paróquia expostas pelos vendedores. Crianças corriam felizes, namorados nos bancos das praças de mãos dadas, barracas de jogos... (festas assim ainda existem?)
Neste contexto, encontrei três amigos da minha infância em Minas Gerais. Um abraço entremeado de alívio desespero selou o estranho encontro. Iniciada a conversa entendi que meus amigos estavam perdidos, sem dinheiro e com fome (talvez por conta de um assalto, acredito). Uma barraca de acarajé chamou atenção do grupo, de pronto saíram correndo para fazer pedido: quatro acarajés para cada! Um total de doze, para a felicidade da baiana que encerrou o trabalho com a venda realizada, seu tabuleiro restou vazio. A Baiana indicou o caminho de volta para meus amigos após eu ter pago a conta com um punhado de moedas de cobre. Na despedida, entreguei mais moedas para que eles seguissem a sua jornada.
Uma vez mais, fiquei só na praça. Percorrendo a lateral da igreja, esbarrando em inúmeras pessoas no vai-e-vem, vejo sob uma grande árvore outra pessoa do passado. Ela estava com uma expressão zangada. Me aproximei para saber o que estava acontecendo. Surpreso, entendi que o problema era comigo. Fui culpado por ter arranhado propositalmente seu carro vermelho (da cor de um chambinho, se é que esse é o nome dá a comida das crianças), fui acusado de ter me desfeito do veículo... Incomodado com a situação, tendo certeza de que eu não tinha sido o autor dos arranhões, pedi para conversarmos a sós.
Entramos num dodge antigo, vermelho e preto, e brigamos como crianças. Durante a briga um bêbado abriu a porta do carro dando início a uma estranha dança descompassada, falava coisas desconexas com sua língua enrolada. Mais uma vez tirei moedas de cobre que estavam no meu bolso para poder ter paz e terminar a conversa.
Saímos com o carro e a briga terminou, tão rápido como havia começado (acho que isso sempre aconteceu). Iniciamos um passeio agradável, gargalhávamos pela estrada falando sobre as pessoas e lugares, contávamos casos da vida, lembranças de uma época sem problemas com obrigações cotidianas simples, um tempo que ríamos de tudo e chorávamos por nada... A vida de duas crianças que no futuro amadureceriam. De volta a igreja, a festa tinha acabado, não existia mais música e as pessoas anteriormente ruidosas entravam em silêncio na igreja ao som das badaladas dos sinos que noticiavam o início da missa das 18:00 hs. Após um abraço na porta da igreja nos despedimos, cada um seguiu o seu destino. Eu, nostálgico pelas lembranças, fui de encontro ao mar, que estava sereno sob a luz da lua, a costa deserta facultava uma visão perfeita dos arredores e do horizonte em alto mar. Ao fundo avistei uma baleia que saltava e esguichava batendo as nadadeiras...
Repentinamente acordo com o despertador do celular da minha nova vida (muitos toques, por sinal), abro os olhos e me enxergo num espelho dentro de olhos verdes. Após um bom dia dado sem palavras, representado apenas por um simpático sorriso matutino, vejo que a nostalgia não faz sentido e me pergunto se de fato o passado existiu.
Despertado, conto os anos que foram transcorridos, sinto todo o seu peso nas costas. Lá se foram trinta e quatro anos, uma vida!